Epifanias do ler

“Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me disse que
somos feitos de histórias.” Eduardo Galeano.

Antes de mais tudo, as reflexões que ora apresento não têm teor acadêmico-científico. Posso até parodiar, dizendo: sou apenas uma professora aposentada, contadora de histórias, latindo em americano, sem dinheiro no bolso – sem parêntesis – e vinda do interior. Mas, talvez nos identifiquemos. Pois guardo comigo aquela estranha teimosia em procurar nos livros, partes de mim. Às vezes nem acho. Nem por isso deixa de ser um deleite. Ou melhor, nem sempre. Há autores que têm substâncias para outros leitores. Talvez para você. Falo aqui daquele arrebatamento especial que um livro pode provocar.

Quando a leitura de um texto, ou simplesmente uma frase me deixa perplexa a ponto de paralisar o tempo, encaixando-se com perfeição num dado momento de minha vida – é que acontece a magia da leitura. Uma luminosa simbiose percorre os emaranhados fios que se tornam pontes de acesso. Mas, que lugar é esse, que estava cá dentro e eu nem sabia, não fosse a palavra, a frase, a história, o sentido?
Que tempo é esse, escondido nos nichos da memória que eu nem suspeitava existir no passado do meu presente?
As histórias guardam mesmo um sapato de ouro que só serve em você. É como se lhe permitisse acessar um conhecimento de si, tão óbvio, tão… Familiar, que tanto pode levar à alegria ou à angústia. Com uma diferença! Com a angústia, é possível encará- la. Porque ao olhar para ela, você se encontra ali refletido. Então posso chorar com ela. Sorrir com ela. Tudo junto, ao mesmo tempo. Resultado? Nos tornamos afeiçoadas. E dessa forma me curo dela. E parto para outra aventura.
Assim, de livro em livro acho minhas pegadas. É! Estou em total afinação com o passarinho. O mesmo que disse o que disse ao Eduardo Galeano. Ave, pássaro!!!